
Com a chegada do outono, a combinação de temperaturas mais amenas, ar seco e mudanças de comportamento da população acende um alerta para a saúde respiratória. Especialistas destacam que o período funciona como uma espécie de “janela epidemiológica”, exigindo atenção redobrada tanto na prevenção quanto no acompanhamento de sintomas.
A pneumologista Carla Bulian, do Hospital Santa Rita, explica que algumas doenças se tornam mais frequentes nesta época do ano. “As principais doenças respiratórias que tendem a aumentar no outono são as rinites alérgicas – pela mudança de clima mais ameno -, as doenças virais (Influenza, Covid 19 e resfriado comum) – devido ao clima mais seco que pode prejudicar a mucosa respiratória, facilitando a entrada de vírus e bactérias, além da tendência das pessoas ficarem em locais mais fechados facilitando o contágio. As doenças como asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) costumam exacerbar nessa época também devido à infecção viral ou complicação com infecção bacteriana.”
Diante desse cenário, a adoção de hábitos simples pode fazer diferença significativa na prevenção de crises respiratórias. “Para prevenir os episódios durante a estação mais seca, especialmente em pessoas com doenças pulmonares, é fundamental manter as medicações em dia e seguir corretamente o tratamento prescrito pelo médico. Evitar locais muito aglomerados ajuda a reduzir o risco de infecções respiratórias, enquanto manter os ambientes arejados e higienizar as mãos com frequência contribui para a proteção contra vírus e bactérias. Além disso, é importante praticar a chamada ‘educação respiratória’ – não tossir diretamente nas mãos, utilizar o cotovelo como proteção ao tossir e, em casos de sintomas respiratórios, usar máscara para evitar a disseminação de partículas”, ressalta a especialista.
A pneumologista do Hospital Santa Rita também alerta: “quando os quadros são persistentes e não apresentam melhora com o uso de medicações de alívio dos sintomas, é preciso procurar atendimento médico rápido para que a doença não evolua.”
Sob a ótica da medicina preventiva, o outono vai além de uma simples transição climática. A clínica geral e geriatra Juliana Sampaio, também do Hospital Santa Rita, destaca que o período exige ajustes estratégicos na rotina. Segundo ela, o aumento das doenças respiratórias não está ligado apenas ao frio, mas a fatores biológicos e comportamentais. “O ar seco compromete o funcionamento dos cílios das vias respiratórias – responsáveis por eliminar impurezas – e favorece a permanência de vírus no organismo. A permanência em ambientes fechados também contribui para a maior transmissão.”
Juliana Sampaio reforça que este é o momento ideal para investir em prevenção. Entre os pontos de atenção estão a exposição ao sol e os níveis de vitamina D, que tendem a cair com a menor incidência de raios UVB; o monitoramento cardiovascular, já que o frio provoca vasoconstrição e pode elevar a pressão arterial; e os cuidados com a saúde respiratória, especialmente para pessoas com doenças crônicas e idosos. “A atualização vacinal contra Influenza, pneumococo e vírus sincicial respiratório também é essencial”, pontua a médica.
Outro aspecto importante é a saúde mental. A redução da luminosidade pode impactar o humor e o sono, tornando fundamental avaliar a qualidade do descanso e fortalecer vínculos sociais. “Pequenas mudanças no dia a dia também ajudam a fortalecer o organismo. A hidratação deve ser mantida, mesmo com a menor sensação de sede, já que o ar seco aumenta a perda de água pela respiração. A higiene do sono ganha importância com noites mais longas, favorecendo a recuperação do corpo. Já a prática de exercícios físicos deve incluir aquecimento adequado, pois o frio reduz a vascularização dos músculos e aumenta o risco de lesões”, diz a médica.
Para as especialistas, o outono não deve ser encarado com preocupação, mas como uma oportunidade de preparação. Ajustes simples na rotina podem fortalecer a imunidade e garantir mais saúde ao longo das estações seguintes.
CRIANÇAS – “A prevenção de doenças respiratórias em crianças no outono exige rigor nos cuidados básicos e atenção redobrada com os mais vulneráveis, como bebês e recém-nascidos. É indispensável manter o calendário vacinal em dia, reduzir a exposição a ambientes fechados e com grande circulação de pessoas e garantir a adequada circulação de ar nos espaços”, diz Bruna Guaitolini, pediatra e alergista do Hospital São José.
A médica acrescenta, ainda, que a higiene deve ser sistemática, com limpeza frequente das mãos e superfícies, além de orientar as crianças maiores sobre a forma correta de tossir e espirrar. “Nos bebês, é fundamental evitar contato com pessoas sintomáticas, limitar visitas, manter o aleitamento materno sempre que possível – por seu papel na proteção imunológica – e assegurar a limpeza adequada das vias aéreas, especialmente em períodos de maior ressecamento do ar. Crianças com histórico de alergias ou doenças respiratórias devem seguir o tratamento de forma criteriosa e manter acompanhamento médico contínuo”, conclui a especialista, que também é professora do Unesc.
